FísicosLX

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Linguagens

1. Para que serve uma linguagem de programação? Para pôr em prática algoritmos previamente estabelecidos, da forma mais eficiente possível, ou para ajudar a pensar nos problemas a resolver?

2. Os ideogramas chineses foram um entrave ao desenvolvimento da China?

8 :

  • A segunda pergunta é muito interessante. Estruturar uma linguagem onde as palavras são simbolos que exprimem uma ideia, e não um som, é estruturar a mente de uma forma completamente diferente. O que tem implicações práticas na forma como se olha, se vê e se sente o Mundo.
    Mas alguém tem a resposta?


    enviado por Blogger OliveiraReis em janeiro 24, 2005 3:59 da tarde  


  • Paul Graham disse-o melhor que ninguém no seu famoso ensaio Hackers and Painters:

    "A programming language is for thinking of programs, not for expressing programs you've already thought of. It should be a pencil, not a pen."

    Muitos não-programadores imaginam a programação como uma tarefa trivial, que consiste na mera transposição de algoritmos para código. Na realidade, a programação de aplicações não-triviais é um processo iterativo, em que a percepção do problema se vai desenvolvendo e soluções antigas são descartadas em favor de novas.

    O mito do programador-filósofo, que concebe abstractamente os seus programas para só no final os traduzir para código, é semelhante à visão que muitos leigos têm da forma como a matemática é produzida: como se os criadores de teoremas chegassem aos mesmos usando um processo mental semelhante ao da prova, quando a realidade é que a prova do teorema é o resultado de um longo processo iterativo em que os andaimes vão sendo eliminados até praticamente não restar nenhum vestígio de que o teorema não nasceu já perfeitamente formado.


    enviado por Blogger Olifante em janeiro 24, 2005 5:35 da tarde  


  • Acho que devemos ver a ciência como uma acumulação de apostas, que pelos seus efeitos sobre o que é real modificam o homem. A natureza é estável, por isso é que permite à tecnologia desenvolver todo o arsenal da materialidade da vida contamporanea.
    Mas não se isso é o caminho para a Verdade ou o Real, é uma acção carregada de subjectividade.


    enviado por Blogger OliveiraReis em janeiro 24, 2005 6:10 da tarde  


  • O mito de que a escrita chinesa é ideográfica foi sobejamente desmontado por John Defrancis, no seu famoso livro The Chinese Language: Fact and Fantasy (1986).

    A verdade é que mais de dois terços dos caracteres chineses são utilizados apenas pelo seu valor fonético. Visto por este prisma, o sistema de escrita chinês constitui um gigantesco silabário, em que a maioria dos símbolos representam uma única sílaba.

    Como o repertório silábico do Mandarim se limita a menos de mil e quinhentas sílabas, o sistema de escrita chinês poderia ser relativamente adequado para a representação fonética do Mandarim, não fora o facto de muitas sílabas poderem ser representadas por múltiplos caracteres, o que em parte explica o grande número de caracteres em uso corrente (>5000).

    A questão da vantagem dos caracteres chineses para o desenvolvimento da China é interessante. Penso que enquanto o domínio da escrita esteve reservado às elites, pode ter constituído uma vantagem, já que os leitores fluentes parecem ser capazes de utilizar o conteúdo semântico de alguns caracteres para desambiguar caracteres homófonos e assim acelerar o processo de leitura (cf. Geoffrey Sampson: Writing Systems: A Linguistic Introduction). No entanto é provável que essa putativa eficiência tenha sido mais do que aniquilada pela lentidão do processo de escrita (por oposição ao processo de leitura).

    O problema da escrita chinesa é que o processo de aquisição da fluência é longo e ineficiente. Numa era em que a educação se deseja universal, e em que vários países com escritas fonémicas ou morfofonémicas são capazes de atingir taxas de literacia perto dos 100%, parece-me que a escrita chinesa é uma relíquia arqueológica destinada aos museus, e não tenho grandes dúvidas de que constitui um entrave à redução das desigualdades gritantes da sociedade chinesa moderna.


    enviado por Blogger Olifante em janeiro 24, 2005 6:37 da tarde  


  • O link para o fascinante livro do Geoffrey Sampson está errado - aqui vai o correcto: Writing Systems: A Linguistic Introduction


    enviado por Blogger Olifante em janeiro 24, 2005 6:43 da tarde  


  • Olifante:

    Muito obrigada pelas referências!

    A segunda pergunta era uma maneira indirecta de responder à primeira... A minha maneira.

    De qualquer modo, se leste "A Riqueza e a Pobreza das Nações", de David S. Landes (Gradiva, 2001), deves ter passado por este parágrafo:

    "De um modo geral, apesar de tudo o que a imprensa fez pela preservação e difusão do conhecimento na China, nunca «explodiu» como na Europa. Muitas publicações dependiam da iniciativa do governo e o mandarinato confuciano desencorajava a dissensão e as novas ideias. Até mesmo a evidência da falsidade do conhecimento convencional podia ser rechaçada como aparência. Como consequência, a actividade intelectual segmentou-se de acordo com linhas pessoais e regionais e a realização científica mostra surpreendentes descontinuidades. «O grande matemático Chu Shih-chieh, treinado na escola setentrional, emigrou para Yang-chou, no Sul, onde os seus livros eram impressos, mas não conseguiu encontrar discípulos. Em consequência, as mais sofisticadas das suas realizações tornaram-se incompreensíveis às gerações seguintes. Mas os textos científicos básicos eram propriedade comum por toda a parte.» [Elvin, Pattern of the Chinese Past, p. 180] Textos básicos, uma espécie de escritura canónica, não são suficientes; pior, podem até esfriar o pensamento."

    Poderíamos facilmente coleccionar referências bibliográficas sobre a influência da linguagem no pensamento, mas parece-me que este exemplo é bastante eloquente, e é válido quer os caracteres chineses sejam representações de conceitos quer sejam de sílabas.

    Nota 1: O David Luz, do Linha dos Nodos, escreveu sobre um artigo da Nature relativo a uma falha no programa responsável pelas operações da sonda Cassini. Não sei se o programa foi escrito em Java, Fortran ou Phyton, mas desconfio que era de mais baixo nível. Diz o director científico, da ESA: "I'm extremely anxious to learn lessons from this." Diz o David: "Na ESA alguém transmitiu um comando que significava ligue-se um receptor em vez de liguem-se os dois receptores. Imagino que a diferença entre estes dois comandos na linguagem em que estavam escritos não era era mais que um parêntesis, ou uma vírgula, ou umas aspas. (...) faltou verificar uma linha de código. Este género de problemas é recorrente nas missões espaciais. E os cientistas envolvidos sabem que o risco é enorme." Gostava de saber a tua opinião sobre como se pode melhorar isto. É que tenho a impressão de que perdi um qualquer seminário sobre gestão de programação...

    Nota 2: Já que te interessas por criptografia, línguas e tipos de escrita... Há dias, a Astronomy Picture of the Day era sobre um manuscrito misterioso, o Manuscrito de Voynich. A Wikipedia tem muitas teorias sobre ele, mas o meu palpite é que é uma brincadeira. Mas como prová-lo? (Por outro lado, não sei por que é que alguém se teria dado a tanto trabalho.)


    enviado por Blogger Aristarco em janeiro 25, 2005 2:53 da tarde  


  • Aristarco, tenho uma resposta notável para as tuas questões que é demasiado grande para caber na margem deste blogue ;-)A minha resposta está no meu blog, o Covil do Olifante


    enviado por Blogger Olifante em janeiro 26, 2005 12:51 da tarde  


  • Acho que os ideogramas nunca terão atrasado o desenvolvimento dos chineses, visto a sua civilização ser das mais avançadas da Antiguidade. E mesmo no presente é das principais potências do mundo. Mas certamente que modificam o funcionamento dos cérebros dos seus falantes, já que a síntaxe é uma das bases (a base?)da inteligência.


    enviado por Blogger Bernardo em janeiro 28, 2005 8:03 da tarde  


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