FísicosLX

segunda-feira, abril 18, 2005

Pode-se fazer um mapa da inteligência humana?

Teresa Firmino

Identificaram-se algumas diferenças no cérebro de Einstein, mas não chegam para dizer que aí residia a origem da sua genialidade

Teria Einstein um cérebro especial, onde seria possível localizar a fonte da genialidade e da criatividade? O primeiro estudo científico do cérebro só surgiu 30 anos após a morte de Einstein, e depois disso publicaram-se dois trabalhos científicos. Até agora não há respostas conclusivas, embora os três artigos assinalem algumas diferenças.

Removido à socapa, o cérebro de Einstein esteve na posse de Thomas Harvey, o patologista que o autopsiou no Hospital de Princeton, em New Jersey, até 1998. Só nesse ano entregou o cérebro àquele hospital.

Apesar de aparentemente o ter removido para fins de investigação, Harvey nunca tomou a iniciativa de publicar qualquer estudo. Quando dava uma entrevista, dizia sempre que "faltava um ano" para terminar o estudo, conta o jornalista Michael Paterniti no livro Ao Volante com Mr. Albert. Então, ao longo da década de 80 começou a enviar pedaços do cérebro a alguns cientistas.

O primeiro trabalho saiu na revista Experimental Neurology, em 1985. Apenas por ter cedido amostras, Harvey aparece entre os autores do estudo, liderado pela neuroanatomista Marian Diamond, da Universidade da Califórnia, nos EUA.

Diamond deparou-se com a foto de uma caixa com o cérebro de Einstein. Publicada na revista norte-americana Science, a legenda dizia que o cérebro estava no Kansas, e ela telefonou para a Universidade do Kansas. Ficou a saber que quem o tinha era um tal Thomas Harvey, no Missouri. No início dos anos 80, Diamond começou a negociar o envio de pedaços do cérebro.

"De seis em seis meses, durante cerca de três anos, telefonei a Harvey, até receber quatro pedaços preciosos pelo correio", contou em 1999 numa palestra. Do tamanho de cubos de açúcar, os pedaços chegaram num frasco de maionese cheio de líquido.

A equipa de Diamond procurou ver qual a quantidade de neurónios e de células gliais, que servem de suporte aos neurónios. Não transmitem impulsos nervosos, mas apoiam os neurónios, para que possam formar boas ligações entre si.

As amostras das quatro zonas do cérebro do físico, dos lobos frontal e parietal, foram comparadas com as de 11 cérebros. "Em todas as quatro áreas, Einstein tinha mais células gliais por neurónio do que a média, mas apenas no lobo parietal inferior esquerdo encontrámos estatisticamente mais", contava Diamond.


Resultados mais válidos se existissem 11 Einsteins

Ter mais células gliais pode significar que os neurónios de Einstein utilizavam mais energia para pensar, o que poderia influenciar as capacidades de raciocínio. Diamond fica-se por aqui. "As diferenças no rácio de células gliais e neurónios são invulgarmente grandes, mas só tínhamos um Einstein para comparar com 11 homens. Os resultados seriam mais válidos se tivéssemos 11 Einsteins."

Um segundo artigo saiu em 1996, na revista Neuroscience Letters. Assinado pela equipa de Britt Anderson, da Universidade do Alabama, nos EUA, Harvey está de novo entre os autores. Apesar de o córtex de Einstein ser menos espesso do que o dos cinco cérebros que serviram de comparação, possuía maior densidade de neurónios. Será que esta diferença está ligada às maiores capacidades de Einstein? Fica a pergunta.

Foi o último estudo, publicado em 1999 na revista médica The Lancet, que deu mais brado. Foi a primeira análise da morfologia global do cérebro, baseada nas fotografias tiradas por Harvey antes de cortá-lo.

Por volta de 1996, Harvey enviou um fax para a Universidade McMaster (Ontário, Canadá), com a mensagem: "Há por aí investigadores que queiram estudar o cérebro de Einstein?" A neurologista Sandra Wiltelson não sabia quem era Harvey, mas ficou fascinada com a possibilidade de estudar o cérebro de Einstein.

Neste estudo, viu-se que em Einstein a cissura de Sílvio, um dos sulcos que separa o lobo frontal do lobo temporal, apresenta um percurso diferente por comparação com o cérebro de 35 homens e de 56 mulheres. E não existe o opérculo parietal, uma zona que costuma estar no fim da cissura de Sílvio e desenvolver-se durante a gestação. "Esta morfologia, encontrada em ambos os hemisférios de Einstein, não existe em qualquer espécime documentado nas colecções de cérebros", diz o artigo, onde também consta o nome de Harvey.

Por causa da ausência do opérculo parietal, o lobo parietal inferior pôde desenvolver-se 15 por cento mais do que o normal. O lobo parietal é importante para as capacidades matemáticas e a representação espacial.

Estas diferenças morfológicas podem ter permitido mais conexões entre os neurónios de Einstein, admitia a equipa, que no entanto ressalvava que continuava por resolver a velha questão do substrato anatómico da inteligência. Antes de mais, estes estudos têm uma fraqueza estatística - razão pela qual o neurologista Alexandre Castro Caldas, da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, os considera pouco consistentes, apesar de apontarem pistas. Mesmo que houvesse mais cérebros de génios, não seriam de Einstein: "Seriam de alguém que se notabilizou por outras razões. Poderiam ter diferenças noutros sítios, não sei se seriam comparáveis."


Actividade mental molda a estrutura cerebral

Entre encontrar diferenças estruturais no cérebro de Einstein e garantir que são responsáveis pela sua genialidade e criatividade vai um grande salto. Castro Caldas diz não ter dúvidas da existência de diferenças no cérebro de Einstein, que provavelmente influenciavam o seu funcionamento. O problema é saber se as diferenças, pelo menos algumas, já nasceram com a pessoa ou surgiram porque ela exercitava o cérebro. Tanto podem estar na origem da genialidade de alguém, como terem resultado dela. Tal como o exercício físico molda os músculos, a actividade intelectual molda o cérebro.

Provas disto encontram-se nos estudos do cérebro dos analfabetos feitos por Castro Caldas. "Os analfabetos têm diferenças morfológicas do cérebro. O treino de ler muda a estrutura do cérebro. A função faz o órgão."

(Público, 17/04/05)

1 :

  • Existem muitoas aspectos intrigantes sobre a inteligência humana. Um deles que parece começar a ser desvendado diz respeito à origem da inteligência.

    detalhes parciais da pesquisa em:
    http://origemdainteligencia.blogspot.com/


    enviado por Blogger ALIRIO FREIRE em março 09, 2008 9:56 da tarde  


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