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terça-feira, abril 26, 2005

Terra



Visões da Terra em tempo real, a partir de imagens de satélite. Com um clique obtém-se uma ampliação; com outro, roda-se a Terra. Aqui.

Portugal deve 38 milhões de euros a organizações científicas internacionais

Notícia do Público.pt.

segunda-feira, abril 18, 2005

Nos 50 anos da morte de Albert Einstein

De cabeçudo e lento a super-inteligente

Nasceu, em 1879, com uma cabeça grande e angulosa na parte de trás, o que parecia não augurar um futuro promissor a Einstein. A aparência da criança perturbou a avó materna e, à primeira reacção, seguiu-se o receio de que pudesse ser atrasada, por ter demorado muito tempo a começar a falar. Por volta dos três anos, já a família se tinha mudado de Ulm para Munique, desenvolveu o hábito de ensaiar frases completas antes de dizê-las em voz alta.

As apreciações sobre as capacidades pouco brilhantes de Einstein continuaram na infância, e talvez seja daí oriunda a ideia, errónea, de que era mau aluno. "A história de que era um mau aluno é um mito, provavelmente devido ao seu desagrado pela educação formal", diz Abraham Pais em Os Génios da Ciência. "Não era o tipo de aluno que seguia o caminho padrão e muitas vezes era lento a formular uma solução. Não estava disposto a aceitar sem reflexão cada palavra do professor", contam Michael White e John Gribbin no livro Einstein.

Era solitário, perdia imenso tempo em quebra-cabeças e adorava construir, pacientemente, casas com baralhos de cartas.

Aos 16 anos, quando os pais se mudaram para Itália e o deixaram em Munique, abandonou a escola. Foi ter com eles, prometendo-lhes que se prepararia sozinho para o exame de admissão no Instituto Politécnico de Zurique, na Suíça. Conta-se que o seu interesse pela ciência despertou por causa de uma bússola oferecida pelo pai, aos cinco anos. Ficou muito impressionado pela força invisível que, teimosamente, fazia apontar a agulha para Norte.

Gostava de fazer experiências mentais. Por exemplo, o que aconteceria se viajasse ao lado de um raio de luz? Ou se estivesse a cair do telhado de uma casa? Estas duas experiências mentais foram importantes para desenvolver a relatividade restrita e a geral.

Referindo-se à última imagem, que lhe ocorreu em 1907, quando ainda trabalhava no Gabinete de Patentes em Berna, na Suíça, Einstein considerou-a como "o pensamento mais feliz" da sua vida.

António Damásio, director do Departamento de Neurologia da Universidade do Iowa, nos EUA, inclui este tipo de padrões mentais naquilo a que chama imagens somatossensoriais (causadas pelos vários sentidos), explicitando que Einstein as utilizava na resolução de problemas.

Ter começado a falar tardiamente pode dever-se a uma característica encontrada no cérebro de Einstein - a ausência do o opérculo parietal, que se forma na gestação. A má formação do opérculo parietal na gestação ou a sua destruição nos adultos têm sido associadas a problemas no discurso, por isso para alguns cientistas esta característica cerebral de Einstein explicaria o facto de ter começado a falar muito tarde.

No entanto, as suas capacidades intelectuais, matizadas por um extraordinário sentido de humor baseado no paradoxo, viriam a tornarem-se um sinónimo tão poderoso de génio que, certa vez, confessou: "Não sou nenhum Einstein." Mas o reconhecimento dessas capacidades não lhe subiu à cabeça. "Não tenho nenhum talento especial, sou apaixonadamente curioso."

Para ele, é uma curiosidade apaixonada que permite descobrir o mundo, apesar de este ser complicado. É isso que significa, aliás, uma das suas famosas frases: "Deus [o mundo] é subtil, mas não é malicioso."

Teresa Firmino

(Público, 17/04/05)

Pode-se fazer um mapa da inteligência humana?

Teresa Firmino

Identificaram-se algumas diferenças no cérebro de Einstein, mas não chegam para dizer que aí residia a origem da sua genialidade

Teria Einstein um cérebro especial, onde seria possível localizar a fonte da genialidade e da criatividade? O primeiro estudo científico do cérebro só surgiu 30 anos após a morte de Einstein, e depois disso publicaram-se dois trabalhos científicos. Até agora não há respostas conclusivas, embora os três artigos assinalem algumas diferenças.

Removido à socapa, o cérebro de Einstein esteve na posse de Thomas Harvey, o patologista que o autopsiou no Hospital de Princeton, em New Jersey, até 1998. Só nesse ano entregou o cérebro àquele hospital.

Apesar de aparentemente o ter removido para fins de investigação, Harvey nunca tomou a iniciativa de publicar qualquer estudo. Quando dava uma entrevista, dizia sempre que "faltava um ano" para terminar o estudo, conta o jornalista Michael Paterniti no livro Ao Volante com Mr. Albert. Então, ao longo da década de 80 começou a enviar pedaços do cérebro a alguns cientistas.

O primeiro trabalho saiu na revista Experimental Neurology, em 1985. Apenas por ter cedido amostras, Harvey aparece entre os autores do estudo, liderado pela neuroanatomista Marian Diamond, da Universidade da Califórnia, nos EUA.

Diamond deparou-se com a foto de uma caixa com o cérebro de Einstein. Publicada na revista norte-americana Science, a legenda dizia que o cérebro estava no Kansas, e ela telefonou para a Universidade do Kansas. Ficou a saber que quem o tinha era um tal Thomas Harvey, no Missouri. No início dos anos 80, Diamond começou a negociar o envio de pedaços do cérebro.

"De seis em seis meses, durante cerca de três anos, telefonei a Harvey, até receber quatro pedaços preciosos pelo correio", contou em 1999 numa palestra. Do tamanho de cubos de açúcar, os pedaços chegaram num frasco de maionese cheio de líquido.

A equipa de Diamond procurou ver qual a quantidade de neurónios e de células gliais, que servem de suporte aos neurónios. Não transmitem impulsos nervosos, mas apoiam os neurónios, para que possam formar boas ligações entre si.

As amostras das quatro zonas do cérebro do físico, dos lobos frontal e parietal, foram comparadas com as de 11 cérebros. "Em todas as quatro áreas, Einstein tinha mais células gliais por neurónio do que a média, mas apenas no lobo parietal inferior esquerdo encontrámos estatisticamente mais", contava Diamond.


Resultados mais válidos se existissem 11 Einsteins

Ter mais células gliais pode significar que os neurónios de Einstein utilizavam mais energia para pensar, o que poderia influenciar as capacidades de raciocínio. Diamond fica-se por aqui. "As diferenças no rácio de células gliais e neurónios são invulgarmente grandes, mas só tínhamos um Einstein para comparar com 11 homens. Os resultados seriam mais válidos se tivéssemos 11 Einsteins."

Um segundo artigo saiu em 1996, na revista Neuroscience Letters. Assinado pela equipa de Britt Anderson, da Universidade do Alabama, nos EUA, Harvey está de novo entre os autores. Apesar de o córtex de Einstein ser menos espesso do que o dos cinco cérebros que serviram de comparação, possuía maior densidade de neurónios. Será que esta diferença está ligada às maiores capacidades de Einstein? Fica a pergunta.

Foi o último estudo, publicado em 1999 na revista médica The Lancet, que deu mais brado. Foi a primeira análise da morfologia global do cérebro, baseada nas fotografias tiradas por Harvey antes de cortá-lo.

Por volta de 1996, Harvey enviou um fax para a Universidade McMaster (Ontário, Canadá), com a mensagem: "Há por aí investigadores que queiram estudar o cérebro de Einstein?" A neurologista Sandra Wiltelson não sabia quem era Harvey, mas ficou fascinada com a possibilidade de estudar o cérebro de Einstein.

Neste estudo, viu-se que em Einstein a cissura de Sílvio, um dos sulcos que separa o lobo frontal do lobo temporal, apresenta um percurso diferente por comparação com o cérebro de 35 homens e de 56 mulheres. E não existe o opérculo parietal, uma zona que costuma estar no fim da cissura de Sílvio e desenvolver-se durante a gestação. "Esta morfologia, encontrada em ambos os hemisférios de Einstein, não existe em qualquer espécime documentado nas colecções de cérebros", diz o artigo, onde também consta o nome de Harvey.

Por causa da ausência do opérculo parietal, o lobo parietal inferior pôde desenvolver-se 15 por cento mais do que o normal. O lobo parietal é importante para as capacidades matemáticas e a representação espacial.

Estas diferenças morfológicas podem ter permitido mais conexões entre os neurónios de Einstein, admitia a equipa, que no entanto ressalvava que continuava por resolver a velha questão do substrato anatómico da inteligência. Antes de mais, estes estudos têm uma fraqueza estatística - razão pela qual o neurologista Alexandre Castro Caldas, da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, os considera pouco consistentes, apesar de apontarem pistas. Mesmo que houvesse mais cérebros de génios, não seriam de Einstein: "Seriam de alguém que se notabilizou por outras razões. Poderiam ter diferenças noutros sítios, não sei se seriam comparáveis."


Actividade mental molda a estrutura cerebral

Entre encontrar diferenças estruturais no cérebro de Einstein e garantir que são responsáveis pela sua genialidade e criatividade vai um grande salto. Castro Caldas diz não ter dúvidas da existência de diferenças no cérebro de Einstein, que provavelmente influenciavam o seu funcionamento. O problema é saber se as diferenças, pelo menos algumas, já nasceram com a pessoa ou surgiram porque ela exercitava o cérebro. Tanto podem estar na origem da genialidade de alguém, como terem resultado dela. Tal como o exercício físico molda os músculos, a actividade intelectual molda o cérebro.

Provas disto encontram-se nos estudos do cérebro dos analfabetos feitos por Castro Caldas. "Os analfabetos têm diferenças morfológicas do cérebro. O treino de ler muda a estrutura do cérebro. A função faz o órgão."

(Público, 17/04/05)

"Quando é que o génio estará em casa para jantar?"

Um episódio passado no início dos anos 20, quando Albert Einstein vivia em Berlim com a sua segunda mulher, ilustra na perfeição o estatuto atingido pelo físico. Havia quem se lhe dirigisse directamente chamando-lhe génio. "A família recebeu a visita de uma artista estrangeira que veio para fazer uma escultura de Einstein. Estando vagamente familiarizada com a língua alemã, ela insistia em referir-se ao seu modelo como "der Genie" ("o génio")", relatam Michael White e John Gribbin no livro Einstein (Publicações Europa-América).

Tal tratamento só podia ter uma reacção: "Causou bastante divertimento na casa, onde Albert passou a ser conhecido pelo Génio. Quando é que o Génio estará em casa para jantar? O Génio teve uma boa sesta? Quando uma visita chegava para Einstein, era anunciada como uma visita para o Génio e ver-se-ia confrontada pelo riso do próprio Einstein."

Foi em 1919 que o autor solitário da teoria da relatividade, em 1905 (a restrita) e 1915 (a geral), atingiu o estatuto de génio. Tinha 40 anos. Ficou (realmente) famoso porque a observação de um eclipse solar, a 29 de Maio, confirmou a teoria da relatividade geral. Einstein acabava de destronar um dos maiores vultos da física, Isaac Newton, com uma melhor explicação do mundo.

Mas se o mundo só se apercebeu de Einstein em 1919, os cientistas reconheceram-lhe o valor pouco depois de 1905. Bastava a teoria da relatividade restrita, onde surgiu a ideia E=mc2, para ficar famoso. Só que naquele ano, Einstein escreveu cinco artigos científicos revolucionários. Num propunha a existência de fotões e explicava o efeito fotoeléctrico, o que lhe valeu o Prémio Nobel da Física em 1922. Outros dois eram sobre a existência das moléculas e dos átomos e os restantes dois sobre a relatividade restrita.

"Qualquer um desses artigos torná-lo-ia muito famoso; o conjunto fê-lo imortal", escreveu o físico Abraham Pais, no livro Os Génios da Ciência (Gradiva).

Para Pais, os artigos de 1905 resultaram de uma "criatividade explosiva" e é com frontalidade que considerou Einstein um génio. "Nem sequer sei o que é uma caracterização completa do que é um génio, excepto que é mais do que uma forma extrema de talento e que os critérios não são objectivos. Noto que o caso de Einstein causa menos celeuma do que o de Picasso e muito menos do que o de Woody Allen; deste modo declaro que, em minha opinião, Einstein era um génio", escreveu Pais em Subtil é o Senhor.

O neurologista Castro Caldas, da Universidade Católica Portuguesa, dá uma achega. "A criatividade é uma capacidade de resolver problemas fugindo das regras estabelecidas. Perante um problema, essas pessoas são capazes de descobrir uma forma nova de resolver um problema."

O reverso da criatividade pode ser a lentidão (e de facto Einstein matutava muito nos problemas, por exemplo andou oito anos a desenvolver a teoria da relatividade geral).

Teresa Firmino

(Público, 17/04/05)

Cérebro de Einstein apanhado numa estranha odisseia

Estava doente e sabia que o fim se aproximava. Einstein morreu há 50 anos. O corpo foi cremado e as cinzas lançadas a um rio. Antes, retiraram-lhe o cérebro sem autorização, fotografaram-no e preservaram-no em formol aos pedaços. Com mais ou menos rigor, alguns livros relatam a estranha odisseia deste cérebro.

Por Teresa Firmino

Quando morreu, na madrugada de 18 de Abril de 1955, faz amanhã 50 anos, Albert Einstein personificava a genialidade. Por isso, o patologista responsável pela autópsia, no Hospital de Princeton, em New Jersey, nos Estados Unidos, onde o físico morreu, decidiu retirar o cérebro sem ter autorização da família. Fotografou-o inteiro e depois cortou-o em 240 pedaços, que guardou durante mais de 40 anos, como uma relíquia, em dois frascos de vidro com formol.

Na última década de vida, Einstein não estava bem de saúde. Sentia dores muito fortes no abdómen. "Estas crises duravam geralmente dois dias, acompanhadas de vómitos e reapareciam decorridos poucos meses", relata o físico Abraham Pais, no livro Subtil é Senhor - Vida e Pensamento de Albert Einstein (Gradiva). Após dores graves, em 1948, foi internado no Hospital Judaico de Brooklyn, em Nova Iorque, e foi-lhe diagnosticado um aneurisma na aorta abdominal (uma espécie de saco na parede externa da artéria que podia ser fatal se rebentasse). Einstein não ligou muito. "Que rebente", disse, segundo relata o livro Possessing Genius: The Bizzarre Odyssey of Einstein"s Brain, da jornalista canadiana Carolyn Abraham.

Por volta de 1951, o aneurisma estava a crescer. "Todos os que o rodeávamos sabíamos que a espada de Dâmocles pendia sobre nós. Ele também o sabia, e esperava-a, calmo e sorridente", disse Helen Dukas, secretária de Einstein desde 1928, numa carta a Abraham Pais.

A 18 de Março de 1950 fez o último testamento. Nomeou um amigo, o economista Otto Nathan, como testamentário, e ele e Helen Dukas como depositários de todas as suas cartas, manuscritos e direitos de autor, com a indicação de que deveriam ser entregues à Universidade Hebraica de Jerusalém, por cuja criação Einstein se bateu. O violino de Einstein, que aprendera a tocar em criança, foi deixado ao neto Bernhard Caesar, filho de Hans Albert.

O testamento incluía cláusulas para os filhos, Hans Albert (morreria em 1973), professor de engenharia na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e Eduard, internado num hospital psiquiátrico em Zurique, na Suíça, com esquizofrenia (morreria em 1965).

Tanto a sua segunda mulher, Elsa Löwenthal, como a irmã Maja, a pessoa de quem se sentiu mais íntimo, já tinham morrido. Maja, que tal como Einstein nasceu na Alemanha, instalou-se também em Princeton. Era ela, Margot, filha da segunda e última mulher de Einstein, e Helen Dukas quem cuidavam do velho cientista, a viver no 112 da Rua Mercer, em Princeton.

Com Hans Albert não tinha uma relação fácil, porque Einstein se divorciou da sua mãe, Mileva Maric. "Teve uma relação complicada com o filho, mas fizeram as pazes", diz Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra com gosto pela divulgação da ciência.

O neto a quem deixou o violino teve cinco filhos, e este ramo da família têm-se mantido discreto, conta Fiolhais.

Já da filha adoptiva de Hans Albert, Evelyn, não pode dizer-se o mesmo. Dedicava-se a fazer com que os fanáticos de seitas deixassem de sê-lo, tentou provar que era filha ilegítima do físico e envolveu-se numa luta judicial com um dos sobrinhos, Thomas, por causa da correspondência familiar de Einstein.

Foi a Evelyn, a viver na Califórnia, que Thomas Harvey, o patologista que autopsiou Einstein, foi mostrar, em 1997, uma dúzia de bocados do cérebro, dentro de um tupperware que transportou de carro pelos EUA, de costa a costa. Viajou com o jornalista Michael Paterniti, que relatou a odisseia no livro, pouco rigoroso e mal traduzido, Ao Volante com Mr. Albert - Uma Viagem Através da América com o Cérebro de Einstein (Teorema).


Olhos também foram retirados

Talvez por se aperceber de que o seu corpo podia ser alvo de uma disputa, Einstein quis ser incinerado. "Quero ser cremado, para que não venham venerar os meus ossos", disse certa vez, segundo Carolyn Abraham. Espalharam as cinzas num rio.

A 13 de Abril de 1955, sofreu um colapso. Ainda recuperou um pouco, mas no dia 16 o seu estado agravou-se e foi internado. Resistiu a fazer uma operação: "Quero partir quando quiser. É de mau gosto prolongar a vida artificialmente; já dei o meu contributo, é tempo de partir. Fá-lo-ei elegantemente."

A última pessoa a vê-lo vivo foi uma enfermeira. Como estava a respirar de maneira diferente, levantou-lhe a cabeceira da cama. Ouviu-o dizer qualquer coisa. Era em alemão, não percebeu. Einstein tinha 76 anos.

Morreu de um problema que podia ter evitado. Gostava de comidas gordas, culpadas pela acumulação de colesterol, que por sua vez contribui para a formação de aneurismas.

Hans Albert só autorizou a autópsia, por isso quando leu nos jornais o que tinha sucedido com o cérebro ficou aborrecido e telefonou a Harvey. O patologista sublinhou a importância de estudar o cérebro à procura de sinais anatómicos de inteligência. "Era o cérebro de um génio. Teria sentido vergonha se o tivesse deixado." Para Harvey, uma autópsia pode incluir remover e, em alguns casos, guardar o cérebro. Pelo menos foi o que justificou a Carolyn Abraham.

Tal como no caso do cérebro, também se levantam dúvidas éticas sobre a remoção dos olhos de Einstein pelo seu oftalmologista, Henry Abrams. A justificação para os tirar dada por Abrams a Paterniti foi esta: "Faziam parte do cérebro e eu queria uma recordação." Estarão guardados no cofre de um banco e, tal como no caso do cérebro, correu o rumor de que Michael Jackson esteve interessado em comprá-los.

Quando Harvey foi despedido, acusado de roubar o cérebro e de se ter recusado a entregá-lo ao director do hospital, inicia-se a odisseia de um cérebro que anda de cidade em cidade, sempre que Harvey muda de vida. De Princeton para o Missouri, onde se tornou médico de família; daqui para Lawrence, no Kansas, onde trabalhou numa fábrica de plásticos; e de novo para perto de Princeton, no fim dos anos 90.

Na altura da viagem no tupperware, já esta história rocambolesca era conhecida de muitos. Mas nem sempre foi assim: como o patologista decidiu levá-lo, durante muito tempo desconheceu-se o paradeiro do cérebro, até que em 1978 o jornalista Steven Levy, do New Jersey Monthy, de Princeton, localizou Harvey e o cérebro, em Wichita, no Kansas. Depois, foi notícia em todo o lado.

Para Carlos Fiolhais, tratou-se de um roubo e o cérebro não passou de um troféu de caça. Essa é aliás a ideia difundida, como atesta a canção de uma banda de heavy-metal, Attic of Love: Stealing Einstein"s Brain, de 1997, diz que um médico resolveu um dia roubar o cérebro, que depois adornava uma estante de troféus.

"É a dignidade humana que está em causa, não é a ciência. Não vale tudo", frisa Fiolhais. "A vontade do defunto era que o seu corpo fosse cremado e ele não isentou partes."

(Público, 17/04/05)

sábado, abril 16, 2005

Atitudes

"A sua decisão de se dedicar à filosofia repousava, pelo que me diz e pelo que conheço de si, no entusiasmo que lhe despertam as leituras dos filósofos, no interesse que têm para o meu Amigo todos os grandes problemas filosóficos e no gosto que teria em apresentar um dia uma congeminação sólida, sem falhas, sobre a estrutura do mundo, sobre o sentido da vida. O não ter posto qualquer espécie de preocupação material, o não ter pensado logo, como quase todos os outros, nas possibilidades que haveria para si de se empregar no fim do curso, não lhe deve ter deixado de aparecer como um bom gosto moral, porque o sei bem sensível em tais questões. Como esta conversa de hoje tem fatalmente de seguir um pouco o curso errante de outras nossas conversas, porque, como já teve ocasião de me dizer, não possuo muito o talento da construção lógica, vou dizer-lhe o que penso deste ponto, ou, pelo menos, de uma parte dele.

"Não sei por que motivo o meu Amigo põe de lado tão ligeiramente os interesses materiais: não ignora decerto que há países em que a profissão de filósofo, de filósofo de ensino, não dá nenhuma espécie de compensação material: é um trabalho para vegetar, não realmente para viver. Você tenciona, pelo que depreendo da sua carta ser um filósofo, não no sentido de que exporá doutrinas alheias ou construirá uma sua doutrina e se dará por satisfeito com tudo isso, mas no sentido de que tentará pôr a sua vida de acordo com a sua filosofia, à maneira de certos gregos e de quase todos os indús. Se isto é assim, o facto de se não importar muito com a parte material da vida, de ter, como se diz, desprezo pelo dinheiro, é já a consequência de uma filosofia; se fosse a sua filosofia a estar de acordo com a vida, você construiria por exemplo uma filosofia de miséria sobre uma vida de miséria; mas, como é o contrário, você sobre uma filosofia de desprezo dos bens materiais constrói uma vida em que esse desprezo se manifesta amplamente; mas desprezo ou repulsão? Um Séneca, como você talvez já saiba, teve o desprezo das riquezas, mas foi banqueiro; um santo tem o desprezo da riqueza e nunca é banqueiro: são duas atitudes diferentes. Você naturalmente vai pela primeira: se a miséria vier, paciência, se vier a riqueza, paciência também."


(Agostinho da Silva, "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", Ulmeiro)

domingo, abril 10, 2005

Relatividade

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(M.C.Escher)

A bomba atômica

I

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
... tu que és mulher e nada mais!
("Deusa", valsa carioca)


Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA

Vem-me uma angústia

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
E coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
De longo sêmen
Da Via-Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.


II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Bomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do hélium
E odor de rádium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais oh bomba atômica
Nunca em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!


III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleães; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor... desce do espaço
Vem dormir, vem dormir, no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enégica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neurônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

Vinícius de Moraes

sábado, abril 02, 2005

Projecto Einstein@home pede ajuda ao seu computador

Para a detecção de ondas gravitacionais.

Notícia do Público

Site do projecto


 

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